Lestics
O cenário da música alternativa no Brasil é extremamente rico. A cada dia pipocam dezenas e dezenas de bandas e artistas com competência e talento extraordinário. Há pouco tempo, falei aqui sobre uma ótima banda de Ska, os Pingüins Tropicais.Agora minha surpresa foi outra. No dia 10/07/08 aconteceu um interessante show no Centro Cultural de São Paulo, no bairro da Liberdade. O nome da vez foi o Lestics, quinteto paulistano com 1 ano e meio de bagagem e com bastante história para contar (e trabalho do bom para mostrar).
Para uma platéia pequena, mas expressiva por ser a primeira aparição da banda na capital, o Lestics, banda paulistana que conta hoje com cinco integrantes, apresentou um show introspectivo, sensível e relaxante.
O Lestics é formada por Olavo Rocha (vocal), Umberto Sipieri (multi-instrumentalista), Marcelo Patu (baixo), Felipe Duarte (bateria) e Lirinha (guitarra). Surgiu no fim do ano de 2006, sendo um projeto paralelo ao Gianoukas Papoulas, do duo Olavo e Umberto, responsável pelo surgimento do Lestics.
Com dois álbuns prontos e um prestes a ser concluído, o grupo expôs um repertório de músicas que encantam pelo tom minimalista, sutil, sem muitas firulas, mas que revelam uma profundidade e uma sofisticação envolvente, tanto nos arranjos como nas letras, ambos de autoria da própria banda.
Fora isso, o Lestics chama atenção por utilizar a internet quase que exclusivamente como ferramenta de divulgação. Claro, isso não é novo. Porém, a banda não fez ainda nem meia dúzia de apresentações e seu trabalho já foi tão difundido, que chegou a ser considerado um dos melhores do circuito alternativo musical em 2007. É bastante, ainda mais pela despretensão do grupo.
O Começo
Como já mencionado, o Lestics surgiu no final do ano de 2006, paralelamente ao Gianoukas Papoulas, banda composta por Olavo, Umberto, Luiz Miranda e Alex Brazales. A dupla, querendo gravar um álbum caseiro, se reuniu e em pouco tempo o projeto estava em andamento. O tal projeto recebeu o nome de Lestics.
O resultado foi um álbum conceitual, chamado 9 sonhos, lançado no início do ano de 2007. Olavo Rocha é responsável pelo vocal de todas as músicas e seu parceiro, Umberto, por todos os instrumentos. Isso mesmo, toda a parte instrumental a cargo de um homem só.
O resultado foi satisfatório, segundo se apura em entrevista da banda espalhadas por certos blogs, e surgiu então o segundo trabalho virtual do grupo (os discos só podem ser encontrados na internet), que recebeu o mesmo nome da banda.
Até o momento, a dupla não havia e não tinha pretensões de se apresentar ao vivo. Quando sentiram a necessidade de se apresentar, já que o resultado estava sendo melhor do que o esperado, o grupo incorporou mais três membros a sua formação: Marcelo Patu, Felipe Duarte e Lirinha.
Atualmente a banda esta trabalhando em um novo álbum e prevendo novas apresentações, além da que ocorreu no Centro Cultural de São Paulo.
Os Álbuns
9 Songs
Como se é de imaginar, o álbum conta com 9 canções. As músicas possuem uma sonoridade agradável, confortável, até mesmo as mais soturnas, revelando aos ouvintes composições um tanto abstratas, que podem ser interpretadas de maneiras diversas.
No geral, as músicas são mais conceituais, metafóricas, como a faixa de abertura ‘Elefantes’, com a seguinte passagem: “(...) os elefantes vem voando, fazendo bolhas de sabão de vez em quando / arrasam tudo que encontram no caminho. As ambulâncias, os vendedores, todos os postes (...)”.
Além da faixa de abertura há ‘Mutatis Mutandi’, ‘Alguma Coisa Me Diz’ — música bem curiosa, que questiona se a rotina é uma coisa real —, ‘O Mundo Acaba’, ‘Dois Olhos’, ‘O Rio’, ‘Tropeço’, ‘Canto de Sereia’ e ‘Escuridão e Silêncio’.
‘Escuridão e Silêncio’, aliás, é com certeza uma das principais canções do disco. Utiliza-se de uma tragédia para se filosofar a sobre a seguite frase: “Eu fui entender depois de acordar; morrer é dormir e não sonhar”.
9 Songs é um álbum rebuscado, instrumentalmente falando, e altamente reflexivo. O ouvinte, além de relaxar, se questionará sobre diversas coisas, sobre si, sobre o que está acontecendo ao seu redor, sobre o que acontece e não prestamos atenção.
Quando levamos em conta que o álbum foi “gravado em casa”, como consta no myspace da banda, conclui-se que o Lestics possui qualidade inquestionável, afinal, 9 Songs é um trabalho extremamente profissional, não parecendo ser um trabalho caseiro (e aqui não estamos desmerecendo trabalhos caseiros!).
Vale ressaltar, também, a capa do trabalho, feito pelo artista plástico Guilherme Caldas e que acompanha os arquivos musicais disponíveis para download (imagem que está no topo desta matéria).
Lestics
O álbum homônimo conta, a exemplo de seu predecessor, com 9 faixas. ‘Tipo’ é a faixa de abertura, seguida de ‘Gênio’, que tem o curioso refrão: “você tem a alma atormentada de um gênio, pena que te falta uma pitada de talento”. São canções com sonoridade branda, agradável.
‘Última Palavra’, terceira do álbum, abre com um poderoso teclado, sendo uma das faixas mais agitadas de Lestics; ‘Luz do Outono’ é uma das mais suaves, sensíveis, do disco.
‘Náusea’ é uma faixa obscura, carregada de sentimentalismo, ora negativos, ora positivos. “A náusea me faz vomitar o que eu penso (...)”. Não há tratamento pra minha patologia / O que não me mata eu transformo em poesia”, são algumas das frases desse poema musical, que narra um quadro de exaustão extrema do ser, impossível de ser curada e que, para sobreviver, utiliza a própria dor como inspiração artística, como válvula de escape.
‘Inevitável’, ‘Metamorfose’, ‘Caos’ e ‘Ego’, completam o ótimo disco que é Lestics. O trabalho gráfico da capa é conceitual e bem interessante e acompanha o download do álbum, como em 9 Songs.
Abaixo, há um entrevista concedida via email pelo vocalista Olavo Rocha, para o site Na Cabeça e o blog Doidos Varridos:
Entrevista
O Lestics é um trabalho independente, sem vínculo algum com gravadoras. Para se fazer conhecido, o principal meio de divulgação foi a internet. Como você encara hoje essas mudanças que a internet vem propiciando a música, essa alteração de vilão (que derrubou as gravadoras) à aliada, como fonte de divulgação praticamente ilimitada?
Bom, para as gravadoras tenho certeza de que a internet continua sendo vilã – apesar de muitos outros fatores terem contribuído para a falência do modelo. A questão é que a web permitiu uma separação mais clara entre essas duas coisas: música e gravadora. Em outros tempos, ter um disco produzido e lançado por uma gravadora “legitimava” o artista. Agora isso acabou. Qualquer um pode gravar, lançar e divulgar seu trabalho de forma absolutamente independente. Isso gera uma pulverização absurda, uma infinidade de bandas e artistas lançando suas músicas na rede, mas tudo bem. A internet tem os seus filtros. Mais cedo ou mais tarde você acaba encontrando seu público.
A cena alternativa brasileira é riquíssima. Você acredita que apenas através da internet e festivais segmentados, é possível expor toda essa quantidade de boas bandas que há hoje no país?
Acho irreversível essa pulverização de que eu falei. Nesse cenário, os festivais e a web cumprem bem o papel de vitrine para as bandas. É claro que não se comparam à exposição que a TV proporciona, principalmente no Brasil. Mas não consigo imaginar o rock brasileiro recuperando a popularidade que tinha há 20 anos, bombando em programas de TV e tal. Isso rola com uma ou outra banda, mas não vejo acontecendo com a “cena”.
Sem se apresentar e comercializar os discos, a fonte de renda dos integrantes do grupo não provém da música? Vocês poderiam citar o que fazem, além de tocar no Lestics? Possuem algum outro projeto musical em andamento? Pretendem torna comercial a banda? — comercial no sentido de sobreviver com ela, não de estar na mídia e em programas de auditório.
A gente não ganha a vida com a banda – a grana que entra com os shows que estamos começando a fazer sequer cobre as despesas – e por isso cada um tem seu emprego, seu ganha-pão oficial. Deve ser legal viver de música, mas isso não chega a ser um objetivo pra mim. Estou muito feliz com o trabalho do Lestics, com a liberdade criativa que a gente tem, com as nossas pequenas conquistas. Ao mesmo tempo, temos outros projetos musicais: o Marcelo Patu toca no Tenente Clown; o Lirinha toca no Plazma; eu e o Umberto, nos Gianoukas Papoulas; e o Felipe tocava, não toca mais, numa banda de hardcore.
Ao ouvir o Lestick, observei forte influência folk e country (me corrija se estiver errado). Há outras, claro, mas essas parecem ser as principais. Quais são os artistas que fazem à cabeça de vocês? Além dos consagrados, há alguma do circuito alternativo?
A nossa música tem muito de folk e country, mas também de rock e pop. Só que as influências e as referências de cada um dos integrantes da banda são muito, muito distintas. Pra você ter uma idéia, ainda não conseguimos escolher uma música que todo mundo aprove pra fazer um cover nos shows.
As letras que ouvi da banda falam bastante de questões existenciais e coisas do cotidiano. Você, como principal letrista, senão for o único, pensa em trabalhos mais politizados, que tratem da sociedade brasileira, violência, corrupção e etc?
Não. Acho muito difícil escrever sobre esses temas – achar um viés original e escapar da indignação consensual ou do protesto mofado.
Em nossa cultura novelesca, letras mais profundas, como as do Lestics, muitas vezes são ignoradas. Vocês possuem a pretensão de atingir um número grande de ouvintes ou um número mais restrito, que entenda e que se identifique com a banda. A velha questão: quantidade ou qualidade?
As músicas do Lestics são só pra ouvir, não servem pra dançar ou bater cabeça, por exemplo. Então é natural que as letras sejam um pouco mais elaboradas. Acho que tem bastante público pra esse tipo de som, que vai atrás desse tipo de som quando está a fim de ouvir alguma coisa mais calma e atenção.
Vocês buscam se divertir com a música que fazem ou ir mais além: tentam inspirar as pessoas, emocioná-las, gerar algum sentimento maior do que a simples diversão que sentem?
Agente faz música por prazer, e espera que a experiência seja prazerosa pra quem ouve. Mesmo que isso implique um nó na garganta de vez em quando.
Eu sei que você é pai. Quem inspira mais: seu filho a você, para compor canções tão bonitas, ou sua figura paterna a seu filho, para que ele, talvez, siga seu caminho na música?
Eu estou muito feliz porque finalmente consegui escrever sobre o meu filho, que já tem treze anos. A música vai entrar no nosso próximo disco. Isso era uma travação enorme pra mim. Comecei milhares de letras sobre ele, mas nunca conseguia terminar. As palavras sempre me pareciam inexpressivas, insuficientes. Dessa vez consegui escrever algo que, se não me deixou completamente satisfeito, pelo menos me pareceu digna. Na verdade acho que a música ficou bem bonita. Enfim, o moleque merece – não é corujice minha, ele realmente é demais ; ) (e tá tocando pra caramba!).
A relação entre os integrantes é boa? Vocês dividem opiniões similares quanto à música?
Nossa relação é ótima, todo mundo ali é muito gente boa. De maneira geral, nossos gostos musicais são bem diferentes, mas a visão sobre música converge, principalmente quando estamos compondo.
E as apresentações e novos trabalhos? Há uma agenda? Pretende participar de algum festival? Aliás, já receberam algum convite?
Seguimos fazendo alguns shows em São Paulo. Tocamos no Centro Cultural São Paulo, no Cidadão do Mundo, na Festa Folk This Town que rolou no Bar B, e vamos tocar na Livraria da Esquina no próximo dia 3 de setembro. Até o fim do ano rolam mais alguns shows. Já fomos convidados a tocar em outras cidades, mas acabamos não fechando nada. Talvez role alguma viagem até o fim do ano.
Olavo, alguém já lhe disse que você parece com o Herbert Vianna? (Brincamos no seu show que você lembrava muito ele, a fisionomia)
Não. Mas muita gente acha que eu sou irmão do Patu!
Resuma as ambições futuras do Lestics (caso haja)
A gente quer lançar dois discos no ano que vem. E fazer mais shows. Acho que por enquanto isso resume as nossas ambições.
Mais Informações
Para ouvir algumas músicas, ler um pouco sobre a banda, verificar um eventual show e dar sua opinião sobre o Lestics, acesse o myspace da banda: www.myspace.com/lestics
Para quem gostar e quiser fazer o download dos dois álbuns dos Lestics, basta acessar o site http://www.lestics.com.br/. É gratuito e rápido.
A próxima apresentação da banda acontecerá dia 03 de setembro na Livraria da Esquina e, em breve, haverá mais shows sendo divulgados.
Show
Onde: Livraria da Esquina — Rua do Bosque, 1254 — Barra Funda
Quando: 03/09/08
Quanto: R$ 8,00
Informações: 3392-3089




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