Um Ensaio Além da Cegueira.

Em terra de cego, quem tem um olho sofre. E como sofre. Entende o trocadilho ocorrido no velho e ultrapassado ditado aqueles que leram o best seller de José Saramago, Ensaio Sobre a Cegueira.
O livro é mais uma obra marcante na vida do vencedor do Nobel de Literatura. Nele, Saramago constrói uma trama altamente desesperadora, revelando a condição humana em situações caóticas. Ensaio Sobre a Cegueira é uma narrativa violenta e asfixiante, tornando sua leitura algo tão penoso quanto um grave ferimento físico.
Para quem não conhece a obra, é importante frisar que o livro não trata sobre a vida de pessoas cegas e suas dificuldades. Na verdade, Saramago utiliza o estado de cegueira como ponto culminante para um quadro de irracionalidade, de brutalidade, por parte das pessoas. Não há heróis e nem lição de vida. Pelo contrário, a eloqüência da obra se concentra no desespero de pessoas que de uma hora para outra se tornaram cegas, graças a uma misteriosa epidemia, demonstrando seu verdadeiro “espírito” mediante a uma situação de aflição.
Através de 310 páginas (Companhia das Letras, 39ª reimpressão), Saramago, de forma brilhante, diga-se de passagem, teve imaginação suficiente para provar mais de uma vez que o ser humano é ruim, e que precisa se dar conta disso. Ou pelo menos admitir. Em mais de uma entrevista, o escritor português afirmou que ao escrever a obra, seu espírito estava triste, negativo, e queria que seus leitores compartilhassem destes sentimentos. Isso mesmo. O escritor quer que você sofra, assim como ele sofreu ao escrever a obra.
A narrativa começa em um cruzamento de trânsito, quando um motorista ao esperar o sinal abrir percebe que não enxerga, soltando um “Eu estou cego”. O livro já começa angustiante, pois com certeza um cruzamento de ruas não é um dos melhores lugares para se perder a visão. O motorista, então, em sua angústia, busca ajuda. Percebe que sua cegueira é uma névoa, é um “fumaceiro branco”, diferente da escuridão, das trevas, que ele — e assim como o personagem, a maioria das pessoas — acredita ser a cegueira.
O motorista, conduzido por sua esposa, vai procurar um médico. A partir da consulta, a epidemia se alastra e a vida de muitos que enquanto enxergavam não reparavam uns nos outros, se cruza (Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara).
O governo, vendo que era incontrolável e não sabendo como lidar com a situação, resolveu confinar em um manicômio os cegos, que aumentavam em quantidades consideráveis, dia após dia. No entanto, a mulher do médico acabou não sendo contagiada pela epidemia, mas resolveu acompanhar seu marido e sofrer junto a ele, ajudando-o com olhos que ainda permanecem intactos.
Já no manicômio, o motorista, o médico, suas respectivas esposas, o velho da venda preta, a rapariga de óculos, o rapazinho estrábico, entre outros, formam um grupo para se ajudarem.
É importante ressaltar que os personagens não possuem nome. São conhecidos por algo que eram ou estavam fazendo antes de cegarem — motorista, o médico, suas respectivas esposas, rapariga de óculos e etc. Essa é uma característica interessante, porque a crueldade, que está presente em todos os momentos do livro, não “trata” ninguém pelo nome, não se compadece perante um velho, criança, mulher ou quem quer que seja. É impessoal, escolhe de modo quase aleatório suas vítimas, não importando o que fazem ou o que são.
No manicômio, este grupo passa por todo tipo de provação. É neste momento do livro que o ser humano é desnudado por Saramago. É justamente num manicômio, lugar para recuperar pessoas com problemas mentais, que os grupos de cegos (sim, mais de um, sendo os principais os que ocupam a primeira camarata, os indivíduos já citados, e os da segunda, que entram em embate com os da primeira) que ocorrem as maiores atrocidades.
A única testemunha ocular de tudo é a mulher do médico, que misteriosamente não foi afetada pela epidemia. Ela ajuda o seu grupo da maneira que pode, sempre se preocupando em não revelar sua real condição. Roubo, saque, estupro, assassinato. Tudo o que há de pior no mundo acontece no manicômio. As pessoas são incapazes de serem solidárias umas com as outras, exceto em pequenos grupos, seja por bondade, seja por interesse. É isso que Saramago nos revela. O ser humano é incapaz de partilhar comida, de viver em harmonia em grandes grupos, de ajudar um semelhante, de fazer qualquer coisa que seja benéfica ao próximo, a uma pessoa que você não conhece.
Curiosamente, a pessoa mais solicita — claro, o fato de ainda enxergar conta bastante — é a mulher do médico. E aí fica uma interessante questão: ela não cega por ser uma pessoa generosa? O leitor, ao ver pequenas digressões sobre as personagens, pode deduzir que a grande parte possui algo em si que os credenciaria a ser cegos, se o critério fosse algo de ruim que tivessem feito. É um ponto de vista. Sendo assim, seria possível questionar o fato do menino, aparentemente inocente, ter cegado. Poderia ele ser uma vítima de algo que a mãe, que ele tanto procura, tenha feito? Quem sabe?
Após um incidente entre o grupo da primeira a da segunda camarata, o grupo conduzido pela mulher do médico consegue sair do manicômio. Ela é a única pessoa capaz de medir o estado pútrido em que o local onde moravam havia se transformado. Óbvio que as pessoas cegas sabiam que a epidemia havia se alastrado e que muitas pessoas estavam mortas e que nada, absolutamente nada funcionava: serviço de água, luz e etc.
Conforme vagavam, cada participante do grupo tinha o desejo de voltar ao lar onde moravam, porém essa necessidade foi se esvaecendo, pois a maioria dos estabelecimentos foram invadidos e saqueados. Neste momento, todos perceberam que, da mesma forma que ocorreu no manicômio, o grupo precisava se manter unido para sobreviver. E inicia-se mais uma saga árdua.
Ensaio Sobre a Cegueira revela muito mais do que a alma dos seres humanos. Revela a alma de uma pessoa que desacredita no amor, na bondade e em qualquer outro sentimento nobre que a raça humana possa ter. “Quando a aflição aperta, quando o corpo se nos demanda de dor e angústia, então é que se vê o animalzinho que somos”, escreve Saramago em seu livro. Como “bom” ateu o escritor criou uma história que repugna crendices e a fé, mostrando sua visão soturna sobre os tempos em que vivemos.
O livro é mais uma obra marcante na vida do vencedor do Nobel de Literatura. Nele, Saramago constrói uma trama altamente desesperadora, revelando a condição humana em situações caóticas. Ensaio Sobre a Cegueira é uma narrativa violenta e asfixiante, tornando sua leitura algo tão penoso quanto um grave ferimento físico.
Para quem não conhece a obra, é importante frisar que o livro não trata sobre a vida de pessoas cegas e suas dificuldades. Na verdade, Saramago utiliza o estado de cegueira como ponto culminante para um quadro de irracionalidade, de brutalidade, por parte das pessoas. Não há heróis e nem lição de vida. Pelo contrário, a eloqüência da obra se concentra no desespero de pessoas que de uma hora para outra se tornaram cegas, graças a uma misteriosa epidemia, demonstrando seu verdadeiro “espírito” mediante a uma situação de aflição.
Através de 310 páginas (Companhia das Letras, 39ª reimpressão), Saramago, de forma brilhante, diga-se de passagem, teve imaginação suficiente para provar mais de uma vez que o ser humano é ruim, e que precisa se dar conta disso. Ou pelo menos admitir. Em mais de uma entrevista, o escritor português afirmou que ao escrever a obra, seu espírito estava triste, negativo, e queria que seus leitores compartilhassem destes sentimentos. Isso mesmo. O escritor quer que você sofra, assim como ele sofreu ao escrever a obra.
A narrativa começa em um cruzamento de trânsito, quando um motorista ao esperar o sinal abrir percebe que não enxerga, soltando um “Eu estou cego”. O livro já começa angustiante, pois com certeza um cruzamento de ruas não é um dos melhores lugares para se perder a visão. O motorista, então, em sua angústia, busca ajuda. Percebe que sua cegueira é uma névoa, é um “fumaceiro branco”, diferente da escuridão, das trevas, que ele — e assim como o personagem, a maioria das pessoas — acredita ser a cegueira.
O motorista, conduzido por sua esposa, vai procurar um médico. A partir da consulta, a epidemia se alastra e a vida de muitos que enquanto enxergavam não reparavam uns nos outros, se cruza (Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara).
O governo, vendo que era incontrolável e não sabendo como lidar com a situação, resolveu confinar em um manicômio os cegos, que aumentavam em quantidades consideráveis, dia após dia. No entanto, a mulher do médico acabou não sendo contagiada pela epidemia, mas resolveu acompanhar seu marido e sofrer junto a ele, ajudando-o com olhos que ainda permanecem intactos.
Já no manicômio, o motorista, o médico, suas respectivas esposas, o velho da venda preta, a rapariga de óculos, o rapazinho estrábico, entre outros, formam um grupo para se ajudarem.
É importante ressaltar que os personagens não possuem nome. São conhecidos por algo que eram ou estavam fazendo antes de cegarem — motorista, o médico, suas respectivas esposas, rapariga de óculos e etc. Essa é uma característica interessante, porque a crueldade, que está presente em todos os momentos do livro, não “trata” ninguém pelo nome, não se compadece perante um velho, criança, mulher ou quem quer que seja. É impessoal, escolhe de modo quase aleatório suas vítimas, não importando o que fazem ou o que são.
No manicômio, este grupo passa por todo tipo de provação. É neste momento do livro que o ser humano é desnudado por Saramago. É justamente num manicômio, lugar para recuperar pessoas com problemas mentais, que os grupos de cegos (sim, mais de um, sendo os principais os que ocupam a primeira camarata, os indivíduos já citados, e os da segunda, que entram em embate com os da primeira) que ocorrem as maiores atrocidades.
A única testemunha ocular de tudo é a mulher do médico, que misteriosamente não foi afetada pela epidemia. Ela ajuda o seu grupo da maneira que pode, sempre se preocupando em não revelar sua real condição. Roubo, saque, estupro, assassinato. Tudo o que há de pior no mundo acontece no manicômio. As pessoas são incapazes de serem solidárias umas com as outras, exceto em pequenos grupos, seja por bondade, seja por interesse. É isso que Saramago nos revela. O ser humano é incapaz de partilhar comida, de viver em harmonia em grandes grupos, de ajudar um semelhante, de fazer qualquer coisa que seja benéfica ao próximo, a uma pessoa que você não conhece.
Curiosamente, a pessoa mais solicita — claro, o fato de ainda enxergar conta bastante — é a mulher do médico. E aí fica uma interessante questão: ela não cega por ser uma pessoa generosa? O leitor, ao ver pequenas digressões sobre as personagens, pode deduzir que a grande parte possui algo em si que os credenciaria a ser cegos, se o critério fosse algo de ruim que tivessem feito. É um ponto de vista. Sendo assim, seria possível questionar o fato do menino, aparentemente inocente, ter cegado. Poderia ele ser uma vítima de algo que a mãe, que ele tanto procura, tenha feito? Quem sabe?
Após um incidente entre o grupo da primeira a da segunda camarata, o grupo conduzido pela mulher do médico consegue sair do manicômio. Ela é a única pessoa capaz de medir o estado pútrido em que o local onde moravam havia se transformado. Óbvio que as pessoas cegas sabiam que a epidemia havia se alastrado e que muitas pessoas estavam mortas e que nada, absolutamente nada funcionava: serviço de água, luz e etc.
Conforme vagavam, cada participante do grupo tinha o desejo de voltar ao lar onde moravam, porém essa necessidade foi se esvaecendo, pois a maioria dos estabelecimentos foram invadidos e saqueados. Neste momento, todos perceberam que, da mesma forma que ocorreu no manicômio, o grupo precisava se manter unido para sobreviver. E inicia-se mais uma saga árdua.
Ensaio Sobre a Cegueira revela muito mais do que a alma dos seres humanos. Revela a alma de uma pessoa que desacredita no amor, na bondade e em qualquer outro sentimento nobre que a raça humana possa ter. “Quando a aflição aperta, quando o corpo se nos demanda de dor e angústia, então é que se vê o animalzinho que somos”, escreve Saramago em seu livro. Como “bom” ateu o escritor criou uma história que repugna crendices e a fé, mostrando sua visão soturna sobre os tempos em que vivemos.
A cegueira branca que assola os indivíduos é uma alegoria, uma forma metafórica de ilustrar a falta de visão dos indivíduos e do governo com relação à decadência na qual as sociedades estão mergulhando. Na trama, o ser é individual e incapaz de se organizar para o bem estar comum, exceto se for com familiares, que no caso do livro, é o grupo guiado pela mulher do médico.
Ensaio é, antes de tudo, uma narrativa pessimista, perturbadora. Como escreveu o próprio autor: “dentro de nós há uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos”. E somos aquilo que fazemos. E o que mais fazemos, segundo o escritor português, é maldade.
Marcadores: Livros




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