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Lestics
Skol Beats 2008
Um Ensaio Além da Cegueira.
Little Joy
Desenterre sua alma
Persepolis
Pingüins Tropicais
Sex and the City no cinema
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Muse no Brasil


31 de Agosto de 2008

Lestics

O cenário da música alternativa no Brasil é extremamente rico. A cada dia pipocam dezenas e dezenas de bandas e artistas com competência e talento extraordinário. Há pouco tempo, falei aqui sobre uma ótima banda de Ska, os Pingüins Tropicais.

Agora minha surpresa foi outra. No dia 10/07/08 aconteceu um interessante show no Centro Cultural de São Paulo, no bairro da Liberdade. O nome da vez foi o Lestics, quinteto paulistano com 1 ano e meio de bagagem e com bastante história para contar (e trabalho do bom para mostrar).

Para uma platéia pequena, mas expressiva por ser a primeira aparição da banda na capital, o Lestics, banda paulistana que conta hoje com cinco integrantes, apresentou um show introspectivo, sensível e relaxante.

O Lestics é formada por Olavo Rocha (vocal), Umberto Sipieri (multi-instrumentalista), Marcelo Patu (baixo), Felipe Duarte (bateria) e Lirinha (guitarra). Surgiu no fim do ano de 2006, sendo um projeto paralelo ao Gianoukas Papoulas, do duo Olavo e Umberto, responsável pelo surgimento do Lestics.

Com dois álbuns prontos e um prestes a ser concluído, o grupo expôs um repertório de músicas que encantam pelo tom minimalista, sutil, sem muitas firulas, mas que revelam uma profundidade e uma sofisticação envolvente, tanto nos arranjos como nas letras, ambos de autoria da própria banda.

Fora isso, o Lestics chama atenção por utilizar a internet quase que exclusivamente como ferramenta de divulgação. Claro, isso não é novo. Porém, a banda não fez ainda nem meia dúzia de apresentações e seu trabalho já foi tão difundido, que chegou a ser considerado um dos melhores do circuito alternativo musical em 2007. É bastante, ainda mais pela despretensão do grupo.

O Começo

Como já mencionado, o Lestics surgiu no final do ano de 2006, paralelamente ao Gianoukas Papoulas, banda composta por Olavo, Umberto, Luiz Miranda e Alex Brazales. A dupla, querendo gravar um álbum caseiro, se reuniu e em pouco tempo o projeto estava em andamento. O tal projeto recebeu o nome de Lestics.

O resultado foi um álbum conceitual, chamado 9 sonhos, lançado no início do ano de 2007. Olavo Rocha é responsável pelo vocal de todas as músicas e seu parceiro, Umberto, por todos os instrumentos. Isso mesmo, toda a parte instrumental a cargo de um homem só.

O resultado foi satisfatório, segundo se apura em entrevista da banda espalhadas por certos blogs, e surgiu então o segundo trabalho virtual do grupo (os discos só podem ser encontrados na internet), que recebeu o mesmo nome da banda.

Até o momento, a dupla não havia e não tinha pretensões de se apresentar ao vivo. Quando sentiram a necessidade de se apresentar, já que o resultado estava sendo melhor do que o esperado, o grupo incorporou mais três membros a sua formação: Marcelo Patu, Felipe Duarte e Lirinha.

Atualmente a banda esta trabalhando em um novo álbum e prevendo novas apresentações, além da que ocorreu no Centro Cultural de São Paulo.

Os Álbuns

9 Songs

Como se é de imaginar, o álbum conta com 9 canções. As músicas possuem uma sonoridade agradável, confortável, até mesmo as mais soturnas, revelando aos ouvintes composições um tanto abstratas, que podem ser interpretadas de maneiras diversas.

No geral, as músicas são mais conceituais, metafóricas, como a faixa de abertura ‘Elefantes’, com a seguinte passagem: “(...) os elefantes vem voando, fazendo bolhas de sabão de vez em quando / arrasam tudo que encontram no caminho. As ambulâncias, os vendedores, todos os postes (...)”.

Além da faixa de abertura há ‘Mutatis Mutandi’, ‘Alguma Coisa Me Diz’ — música bem curiosa, que questiona se a rotina é uma coisa real —, ‘O Mundo Acaba’, ‘Dois Olhos’, ‘O Rio’, ‘Tropeço’, ‘Canto de Sereia’ e ‘Escuridão e Silêncio’.

‘Escuridão e Silêncio’, aliás, é com certeza uma das principais canções do disco. Utiliza-se de uma tragédia para se filosofar a sobre a seguite frase: “Eu fui entender depois de acordar; morrer é dormir e não sonhar”.

9 Songs é um álbum rebuscado, instrumentalmente falando, e altamente reflexivo. O ouvinte, além de relaxar, se questionará sobre diversas coisas, sobre si, sobre o que está acontecendo ao seu redor, sobre o que acontece e não prestamos atenção.

Quando levamos em conta que o álbum foi “gravado em casa”, como consta no myspace da banda, conclui-se que o Lestics possui qualidade inquestionável, afinal, 9 Songs é um trabalho extremamente profissional, não parecendo ser um trabalho caseiro (e aqui não estamos desmerecendo trabalhos caseiros!).

Vale ressaltar, também, a capa do trabalho, feito pelo artista plástico Guilherme Caldas e que acompanha os arquivos musicais disponíveis para download (imagem que está no topo desta matéria).

Lestics

O álbum homônimo conta, a exemplo de seu predecessor, com 9 faixas. ‘Tipo’ é a faixa de abertura, seguida de ‘Gênio’, que tem o curioso refrão: “você tem a alma atormentada de um gênio, pena que te falta uma pitada de talento”. São canções com sonoridade branda, agradável.

‘Última Palavra’, terceira do álbum, abre com um poderoso teclado, sendo uma das faixas mais agitadas de Lestics; ‘Luz do Outono’ é uma das mais suaves, sensíveis, do disco.

‘Náusea’ é uma faixa obscura, carregada de sentimentalismo, ora negativos, ora positivos. “A náusea me faz vomitar o que eu penso (...)”. Não há tratamento pra minha patologia / O que não me mata eu transformo em poesia”, são algumas das frases desse poema musical, que narra um quadro de exaustão extrema do ser, impossível de ser curada e que, para sobreviver, utiliza a própria dor como inspiração artística, como válvula de escape.

‘Inevitável’, ‘Metamorfose’, ‘Caos’ e ‘Ego’, completam o ótimo disco que é Lestics. O trabalho gráfico da capa é conceitual e bem interessante e acompanha o download do álbum, como em 9 Songs.

Abaixo, há um entrevista concedida via email pelo vocalista Olavo Rocha, para o site Na Cabeça e o blog Doidos Varridos:

Entrevista

O Lestics é um trabalho independente, sem vínculo algum com gravadoras. Para se fazer conhecido, o principal meio de divulgação foi a internet. Como você encara hoje essas mudanças que a internet vem propiciando a música, essa alteração de vilão (que derrubou as gravadoras) à aliada, como fonte de divulgação praticamente ilimitada?

Bom, para as gravadoras tenho certeza de que a internet continua sendo vilã – apesar de muitos outros fatores terem contribuído para a falência do modelo. A questão é que a web permitiu uma separação mais clara entre essas duas coisas: música e gravadora. Em outros tempos, ter um disco produzido e lançado por uma gravadora “legitimava” o artista. Agora isso acabou. Qualquer um pode gravar, lançar e divulgar seu trabalho de forma absolutamente independente. Isso gera uma pulverização absurda, uma infinidade de bandas e artistas lançando suas músicas na rede, mas tudo bem. A internet tem os seus filtros. Mais cedo ou mais tarde você acaba encontrando seu público.

A cena alternativa brasileira é riquíssima. Você acredita que apenas através da internet e festivais segmentados, é possível expor toda essa quantidade de boas bandas que há hoje no país?

Acho irreversível essa pulverização de que eu falei. Nesse cenário, os festivais e a web cumprem bem o papel de vitrine para as bandas. É claro que não se comparam à exposição que a TV proporciona, principalmente no Brasil. Mas não consigo imaginar o rock brasileiro recuperando a popularidade que tinha há 20 anos, bombando em programas de TV e tal. Isso rola com uma ou outra banda, mas não vejo acontecendo com a “cena”.

Sem se apresentar e comercializar os discos, a fonte de renda dos integrantes do grupo não provém da música? Vocês poderiam citar o que fazem, além de tocar no Lestics? Possuem algum outro projeto musical em andamento? Pretendem torna comercial a banda? — comercial no sentido de sobreviver com ela, não de estar na mídia e em programas de auditório.

A gente não ganha a vida com a banda – a grana que entra com os shows que estamos começando a fazer sequer cobre as despesas – e por isso cada um tem seu emprego, seu ganha-pão oficial. Deve ser legal viver de música, mas isso não chega a ser um objetivo pra mim. Estou muito feliz com o trabalho do Lestics, com a liberdade criativa que a gente tem, com as nossas pequenas conquistas. Ao mesmo tempo, temos outros projetos musicais: o Marcelo Patu toca no Tenente Clown; o Lirinha toca no Plazma; eu e o Umberto, nos Gianoukas Papoulas; e o Felipe tocava, não toca mais, numa banda de hardcore.

Ao ouvir o Lestick, observei forte influência folk e country (me corrija se estiver errado). Há outras, claro, mas essas parecem ser as principais. Quais são os artistas que fazem à cabeça de vocês? Além dos consagrados, há alguma do circuito alternativo?

A nossa música tem muito de folk e country, mas também de rock e pop. Só que as influências e as referências de cada um dos integrantes da banda são muito, muito distintas. Pra você ter uma idéia, ainda não conseguimos escolher uma música que todo mundo aprove pra fazer um cover nos shows.

As letras que ouvi da banda falam bastante de questões existenciais e coisas do cotidiano. Você, como principal letrista, senão for o único, pensa em trabalhos mais politizados, que tratem da sociedade brasileira, violência, corrupção e etc?

Não. Acho muito difícil escrever sobre esses temas – achar um viés original e escapar da indignação consensual ou do protesto mofado.

Em nossa cultura novelesca, letras mais profundas, como as do Lestics, muitas vezes são ignoradas. Vocês possuem a pretensão de atingir um número grande de ouvintes ou um número mais restrito, que entenda e que se identifique com a banda. A velha questão: quantidade ou qualidade?

As músicas do Lestics são só pra ouvir, não servem pra dançar ou bater cabeça, por exemplo. Então é natural que as letras sejam um pouco mais elaboradas. Acho que tem bastante público pra esse tipo de som, que vai atrás desse tipo de som quando está a fim de ouvir alguma coisa mais calma e atenção.

Vocês buscam se divertir com a música que fazem ou ir mais além: tentam inspirar as pessoas, emocioná-las, gerar algum sentimento maior do que a simples diversão que sentem?

Agente faz música por prazer, e espera que a experiência seja prazerosa pra quem ouve. Mesmo que isso implique um nó na garganta de vez em quando.

Eu sei que você é pai. Quem inspira mais: seu filho a você, para compor canções tão bonitas, ou sua figura paterna a seu filho, para que ele, talvez, siga seu caminho na música?

Eu estou muito feliz porque finalmente consegui escrever sobre o meu filho, que já tem treze anos. A música vai entrar no nosso próximo disco. Isso era uma travação enorme pra mim. Comecei milhares de letras sobre ele, mas nunca conseguia terminar. As palavras sempre me pareciam inexpressivas, insuficientes. Dessa vez consegui escrever algo que, se não me deixou completamente satisfeito, pelo menos me pareceu digna. Na verdade acho que a música ficou bem bonita. Enfim, o moleque merece – não é corujice minha, ele realmente é demais ; ) (e tá tocando pra caramba!).

A relação entre os integrantes é boa? Vocês dividem opiniões similares quanto à música?

Nossa relação é ótima, todo mundo ali é muito gente boa. De maneira geral, nossos gostos musicais são bem diferentes, mas a visão sobre música converge, principalmente quando estamos compondo.

E as apresentações e novos trabalhos? Há uma agenda? Pretende participar de algum festival? Aliás, já receberam algum convite?

Seguimos fazendo alguns shows em São Paulo. Tocamos no Centro Cultural São Paulo, no Cidadão do Mundo, na Festa Folk This Town que rolou no Bar B, e vamos tocar na Livraria da Esquina no próximo dia 3 de setembro. Até o fim do ano rolam mais alguns shows. Já fomos convidados a tocar em outras cidades, mas acabamos não fechando nada. Talvez role alguma viagem até o fim do ano.

Olavo, alguém já lhe disse que você parece com o Herbert Vianna? (Brincamos no seu show que você lembrava muito ele, a fisionomia)
Não. Mas muita gente acha que eu sou irmão do Patu!

Resuma as ambições futuras do Lestics (caso haja)

A gente quer lançar dois discos no ano que vem. E fazer mais shows. Acho que por enquanto isso resume as nossas ambições.

Mais Informações

Para ouvir algumas músicas, ler um pouco sobre a banda, verificar um eventual show e dar sua opinião sobre o Lestics, acesse o myspace da banda: www.myspace.com/lestics

Para quem gostar e quiser fazer o download dos dois álbuns dos Lestics, basta acessar o site http://www.lestics.com.br/. É gratuito e rápido.


A próxima apresentação da banda acontecerá dia 03 de setembro na Livraria da Esquina e, em breve, haverá mais shows sendo divulgados.


Show


Onde: Livraria da Esquina — Rua do Bosque, 1254 — Barra Funda
Quando: 03/09/08
Quanto: R$ 8,00
Informações: 3392-3089

25 de Agosto de 2008

Skol Beats 2008


A edição de 2008 do Skol Beats, desenvolvido com a ajuda do público, já está com seu formato finalizado. Após quatro meses de votações em cinco etapas diferentes, o festival que acontece em 27 de setembro já divulgou todos os detalhes de sua 9ª edição.

O maior evento de música eletrônica da América Latina acontece no Sambódromo, em São Paulo, a partir das 18h. Com um palco (Skol Live) e duas tendas (Skol Beats e Terra), o festival está mais enxuto que sua versão de 2007.

As principais atrações deste ano são um misto de grandes nomes com inéditas aparições. A dupla alemã Digitalism, os franceses do Justice, Dubfire e os brasileiros Gui Boratto, Anderson Noise e Montage já estão confirmados. Claro que o DJ brasileiro Marky não ficou de fora dessa.

Os VJs escolhidos pela votação com os participantes foram Alexis/Visual Farm e Spetto, que ficarão responsáveis pela mixagem de imagens digitais. A cenografia do evento também conta com o público. Os trabalhos fotográficos e/ou ilustrativos poderão ser enviados até o dia 7 de setembro.

A ação de responsabilidade social, votada pelo site oficial, irá reverter o valor da coleta de todo o lixo reciclável da noite ao Cisa, Centro de Informações sobre Saúde e Álcool.

Para facilitar a volta pra casa, a organização do Skol Beats distribuirá junto com os ingressos adquiridos, um passe de ida e volta para o Metrô. A iniciativa visa estimular o público a deixar o carro em casa. Táxis e serviços de van a domicílio também estarão disponíveis.

A venda dos ingressos começou neste sábado, dia 23 de agosto, em todo o Brasil e também pela internet através do site http://www.ticketmaster.com.br/. Até o dia 7 de setembro, o valor do ticket será de R$ 80 e R$ 40 (meia entrada). Do dia 8 até 26 de setembro, o valor sobe para R$ 100 e R$ 50 (meia entrada). Já nos dias do evento, o preço será R$ 120 e R$ 60 (meia entrada).

O postos credenciados para o Skol Beats 2008 são:


São Paulo
Auditório do Ibirapuera – Av. Pedro Álvares Cabral, s/nº.
FNAC – Pinheiros, Paulista e Morumbi.
Saraiva Mega Store – dos shoppings Morumbi, Eldorado, Ibirapuera, Center Norte e Anália Franco.
Citibank Hall – Av. dos Jamaris, 213.
Teatro Abril – Av. Brigadeiro Luís Antônio, 411.
Ipiranga Gravatinha – Av. Portugal, 1.756 - Santo André.
Campinas possue também outros pontos de vendas.

Rio de janeiro
FNAC - Barra Shopping.
Modern Sound – Rua Barata Ribeiro, 502.
Postos Ipiranga (Jockey Rio, Lagoa e CW 332).

Minas Gerais
Leitura BH Shopping – Rod. BR 356, nº 3.049 – Loja 37/38.
Leitura Savassi – Av. Cristóvão Colombo, 167.
Crevrolet Hall – Av. Nossa Senhora do Carmo, 230.

Curitiba

FNAC – Curitiba.

Brasília – DF

FNAC – Brasília.

Porto Alegre

iMeeting – Rua Nova York, 10.

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12 de Agosto de 2008

Um Ensaio Além da Cegueira.


Em terra de cego, quem tem um olho sofre. E como sofre. Entende o trocadilho ocorrido no velho e ultrapassado ditado aqueles que leram o best seller de José Saramago, Ensaio Sobre a Cegueira.

O livro é mais uma obra marcante na vida do vencedor do Nobel de Literatura. Nele, Saramago constrói uma trama altamente desesperadora, revelando a condição humana em situações caóticas. Ensaio Sobre a Cegueira é uma narrativa violenta e asfixiante, tornando sua leitura algo tão penoso quanto um grave ferimento físico.

Para quem não conhece a obra, é importante frisar que o livro não trata sobre a vida de pessoas cegas e suas dificuldades. Na verdade, Saramago utiliza o estado de cegueira como ponto culminante para um quadro de irracionalidade, de brutalidade, por parte das pessoas. Não há heróis e nem lição de vida. Pelo contrário, a eloqüência da obra se concentra no desespero de pessoas que de uma hora para outra se tornaram cegas, graças a uma misteriosa epidemia, demonstrando seu verdadeiro “espírito” mediante a uma situação de aflição.

Através de 310 páginas (Companhia das Letras, 39ª reimpressão), Saramago, de forma brilhante, diga-se de passagem, teve imaginação suficiente para provar mais de uma vez que o ser humano é ruim, e que precisa se dar conta disso. Ou pelo menos admitir. Em mais de uma entrevista, o escritor português afirmou que ao escrever a obra, seu espírito estava triste, negativo, e queria que seus leitores compartilhassem destes sentimentos. Isso mesmo. O escritor quer que você sofra, assim como ele sofreu ao escrever a obra.

A narrativa começa em um cruzamento de trânsito, quando um motorista ao esperar o sinal abrir percebe que não enxerga, soltando um “Eu estou cego”. O livro já começa angustiante, pois com certeza um cruzamento de ruas não é um dos melhores lugares para se perder a visão. O motorista, então, em sua angústia, busca ajuda. Percebe que sua cegueira é uma névoa, é um “fumaceiro branco”, diferente da escuridão, das trevas, que ele — e assim como o personagem, a maioria das pessoas — acredita ser a cegueira.

O motorista, conduzido por sua esposa, vai procurar um médico. A partir da consulta, a epidemia se alastra e a vida de muitos que enquanto enxergavam não reparavam uns nos outros, se cruza (Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara).

O governo, vendo que era incontrolável e não sabendo como lidar com a situação, resolveu confinar em um manicômio os cegos, que aumentavam em quantidades consideráveis, dia após dia. No entanto, a mulher do médico acabou não sendo contagiada pela epidemia, mas resolveu acompanhar seu marido e sofrer junto a ele, ajudando-o com olhos que ainda permanecem intactos.

Já no manicômio, o motorista, o médico, suas respectivas esposas, o velho da venda preta, a rapariga de óculos, o rapazinho estrábico, entre outros, formam um grupo para se ajudarem.

É importante ressaltar que os personagens não possuem nome. São conhecidos por algo que eram ou estavam fazendo antes de cegarem — motorista, o médico, suas respectivas esposas, rapariga de óculos e etc. Essa é uma característica interessante, porque a crueldade, que está presente em todos os momentos do livro, não “trata” ninguém pelo nome, não se compadece perante um velho, criança, mulher ou quem quer que seja. É impessoal, escolhe de modo quase aleatório suas vítimas, não importando o que fazem ou o que são.

No manicômio, este grupo passa por todo tipo de provação. É neste momento do livro que o ser humano é desnudado por Saramago. É justamente num manicômio, lugar para recuperar pessoas com problemas mentais, que os grupos de cegos (sim, mais de um, sendo os principais os que ocupam a primeira camarata, os indivíduos já citados, e os da segunda, que entram em embate com os da primeira) que ocorrem as maiores atrocidades.

A única testemunha ocular de tudo é a mulher do médico, que misteriosamente não foi afetada pela epidemia. Ela ajuda o seu grupo da maneira que pode, sempre se preocupando em não revelar sua real condição. Roubo, saque, estupro, assassinato. Tudo o que há de pior no mundo acontece no manicômio. As pessoas são incapazes de serem solidárias umas com as outras, exceto em pequenos grupos, seja por bondade, seja por interesse. É isso que Saramago nos revela. O ser humano é incapaz de partilhar comida, de viver em harmonia em grandes grupos, de ajudar um semelhante, de fazer qualquer coisa que seja benéfica ao próximo, a uma pessoa que você não conhece.

Curiosamente, a pessoa mais solicita — claro, o fato de ainda enxergar conta bastante — é a mulher do médico. E aí fica uma interessante questão: ela não cega por ser uma pessoa generosa? O leitor, ao ver pequenas digressões sobre as personagens, pode deduzir que a grande parte possui algo em si que os credenciaria a ser cegos, se o critério fosse algo de ruim que tivessem feito. É um ponto de vista. Sendo assim, seria possível questionar o fato do menino, aparentemente inocente, ter cegado. Poderia ele ser uma vítima de algo que a mãe, que ele tanto procura, tenha feito? Quem sabe?

Após um incidente entre o grupo da primeira a da segunda camarata, o grupo conduzido pela mulher do médico consegue sair do manicômio. Ela é a única pessoa capaz de medir o estado pútrido em que o local onde moravam havia se transformado. Óbvio que as pessoas cegas sabiam que a epidemia havia se alastrado e que muitas pessoas estavam mortas e que nada, absolutamente nada funcionava: serviço de água, luz e etc.

Conforme vagavam, cada participante do grupo tinha o desejo de voltar ao lar onde moravam, porém essa necessidade foi se esvaecendo, pois a maioria dos estabelecimentos foram invadidos e saqueados. Neste momento, todos perceberam que, da mesma forma que ocorreu no manicômio, o grupo precisava se manter unido para sobreviver. E inicia-se mais uma saga árdua.

Ensaio Sobre a Cegueira revela muito mais do que a alma dos seres humanos. Revela a alma de uma pessoa que desacredita no amor, na bondade e em qualquer outro sentimento nobre que a raça humana possa ter. “Quando a aflição aperta, quando o corpo se nos demanda de dor e angústia, então é que se vê o animalzinho que somos”, escreve Saramago em seu livro. Como “bom” ateu o escritor criou uma história que repugna crendices e a fé, mostrando sua visão soturna sobre os tempos em que vivemos.

A cegueira branca que assola os indivíduos é uma alegoria, uma forma metafórica de ilustrar a falta de visão dos indivíduos e do governo com relação à decadência na qual as sociedades estão mergulhando. Na trama, o ser é individual e incapaz de se organizar para o bem estar comum, exceto se for com familiares, que no caso do livro, é o grupo guiado pela mulher do médico.

Ensaio é, antes de tudo, uma narrativa pessimista, perturbadora. Como escreveu o próprio autor: “dentro de nós há uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos”. E somos aquilo que fazemos. E o que mais fazemos, segundo o escritor português, é maldade.


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