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12 de Agosto de 2008

Um Ensaio Além da Cegueira.


Em terra de cego, quem tem um olho sofre. E como sofre. Entende o trocadilho ocorrido no velho e ultrapassado ditado aqueles que leram o best seller de José Saramago, Ensaio Sobre a Cegueira.

O livro é mais uma obra marcante na vida do vencedor do Nobel de Literatura. Nele, Saramago constrói uma trama altamente desesperadora, revelando a condição humana em situações caóticas. Ensaio Sobre a Cegueira é uma narrativa violenta e asfixiante, tornando sua leitura algo tão penoso quanto um grave ferimento físico.

Para quem não conhece a obra, é importante frisar que o livro não trata sobre a vida de pessoas cegas e suas dificuldades. Na verdade, Saramago utiliza o estado de cegueira como ponto culminante para um quadro de irracionalidade, de brutalidade, por parte das pessoas. Não há heróis e nem lição de vida. Pelo contrário, a eloqüência da obra se concentra no desespero de pessoas que de uma hora para outra se tornaram cegas, graças a uma misteriosa epidemia, demonstrando seu verdadeiro “espírito” mediante a uma situação de aflição.

Através de 310 páginas (Companhia das Letras, 39ª reimpressão), Saramago, de forma brilhante, diga-se de passagem, teve imaginação suficiente para provar mais de uma vez que o ser humano é ruim, e que precisa se dar conta disso. Ou pelo menos admitir. Em mais de uma entrevista, o escritor português afirmou que ao escrever a obra, seu espírito estava triste, negativo, e queria que seus leitores compartilhassem destes sentimentos. Isso mesmo. O escritor quer que você sofra, assim como ele sofreu ao escrever a obra.

A narrativa começa em um cruzamento de trânsito, quando um motorista ao esperar o sinal abrir percebe que não enxerga, soltando um “Eu estou cego”. O livro já começa angustiante, pois com certeza um cruzamento de ruas não é um dos melhores lugares para se perder a visão. O motorista, então, em sua angústia, busca ajuda. Percebe que sua cegueira é uma névoa, é um “fumaceiro branco”, diferente da escuridão, das trevas, que ele — e assim como o personagem, a maioria das pessoas — acredita ser a cegueira.

O motorista, conduzido por sua esposa, vai procurar um médico. A partir da consulta, a epidemia se alastra e a vida de muitos que enquanto enxergavam não reparavam uns nos outros, se cruza (Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara).

O governo, vendo que era incontrolável e não sabendo como lidar com a situação, resolveu confinar em um manicômio os cegos, que aumentavam em quantidades consideráveis, dia após dia. No entanto, a mulher do médico acabou não sendo contagiada pela epidemia, mas resolveu acompanhar seu marido e sofrer junto a ele, ajudando-o com olhos que ainda permanecem intactos.

Já no manicômio, o motorista, o médico, suas respectivas esposas, o velho da venda preta, a rapariga de óculos, o rapazinho estrábico, entre outros, formam um grupo para se ajudarem.

É importante ressaltar que os personagens não possuem nome. São conhecidos por algo que eram ou estavam fazendo antes de cegarem — motorista, o médico, suas respectivas esposas, rapariga de óculos e etc. Essa é uma característica interessante, porque a crueldade, que está presente em todos os momentos do livro, não “trata” ninguém pelo nome, não se compadece perante um velho, criança, mulher ou quem quer que seja. É impessoal, escolhe de modo quase aleatório suas vítimas, não importando o que fazem ou o que são.

No manicômio, este grupo passa por todo tipo de provação. É neste momento do livro que o ser humano é desnudado por Saramago. É justamente num manicômio, lugar para recuperar pessoas com problemas mentais, que os grupos de cegos (sim, mais de um, sendo os principais os que ocupam a primeira camarata, os indivíduos já citados, e os da segunda, que entram em embate com os da primeira) que ocorrem as maiores atrocidades.

A única testemunha ocular de tudo é a mulher do médico, que misteriosamente não foi afetada pela epidemia. Ela ajuda o seu grupo da maneira que pode, sempre se preocupando em não revelar sua real condição. Roubo, saque, estupro, assassinato. Tudo o que há de pior no mundo acontece no manicômio. As pessoas são incapazes de serem solidárias umas com as outras, exceto em pequenos grupos, seja por bondade, seja por interesse. É isso que Saramago nos revela. O ser humano é incapaz de partilhar comida, de viver em harmonia em grandes grupos, de ajudar um semelhante, de fazer qualquer coisa que seja benéfica ao próximo, a uma pessoa que você não conhece.

Curiosamente, a pessoa mais solicita — claro, o fato de ainda enxergar conta bastante — é a mulher do médico. E aí fica uma interessante questão: ela não cega por ser uma pessoa generosa? O leitor, ao ver pequenas digressões sobre as personagens, pode deduzir que a grande parte possui algo em si que os credenciaria a ser cegos, se o critério fosse algo de ruim que tivessem feito. É um ponto de vista. Sendo assim, seria possível questionar o fato do menino, aparentemente inocente, ter cegado. Poderia ele ser uma vítima de algo que a mãe, que ele tanto procura, tenha feito? Quem sabe?

Após um incidente entre o grupo da primeira a da segunda camarata, o grupo conduzido pela mulher do médico consegue sair do manicômio. Ela é a única pessoa capaz de medir o estado pútrido em que o local onde moravam havia se transformado. Óbvio que as pessoas cegas sabiam que a epidemia havia se alastrado e que muitas pessoas estavam mortas e que nada, absolutamente nada funcionava: serviço de água, luz e etc.

Conforme vagavam, cada participante do grupo tinha o desejo de voltar ao lar onde moravam, porém essa necessidade foi se esvaecendo, pois a maioria dos estabelecimentos foram invadidos e saqueados. Neste momento, todos perceberam que, da mesma forma que ocorreu no manicômio, o grupo precisava se manter unido para sobreviver. E inicia-se mais uma saga árdua.

Ensaio Sobre a Cegueira revela muito mais do que a alma dos seres humanos. Revela a alma de uma pessoa que desacredita no amor, na bondade e em qualquer outro sentimento nobre que a raça humana possa ter. “Quando a aflição aperta, quando o corpo se nos demanda de dor e angústia, então é que se vê o animalzinho que somos”, escreve Saramago em seu livro. Como “bom” ateu o escritor criou uma história que repugna crendices e a fé, mostrando sua visão soturna sobre os tempos em que vivemos.

A cegueira branca que assola os indivíduos é uma alegoria, uma forma metafórica de ilustrar a falta de visão dos indivíduos e do governo com relação à decadência na qual as sociedades estão mergulhando. Na trama, o ser é individual e incapaz de se organizar para o bem estar comum, exceto se for com familiares, que no caso do livro, é o grupo guiado pela mulher do médico.

Ensaio é, antes de tudo, uma narrativa pessimista, perturbadora. Como escreveu o próprio autor: “dentro de nós há uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos”. E somos aquilo que fazemos. E o que mais fazemos, segundo o escritor português, é maldade.


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16 de Dezembro de 2007

Bob Dylan CHRONICLES: Vol. One

Lançado em 2004 Bob Dylan CHRONICLES: Vol. One é apenas o primeiro livro de uma série auto-biográfica na qual o senhor Robert Allen Zimmerman pretende contar histórias de períodos diferentes e significantes dentro da sua vida e carreira.

Aqui ele mais uma vez deixa sua marca registrada ao confundir os ávidos leitores dedicando quase todo o livro aos anos que precederam sua chegada em Nova York e a gravação de seu primeiro álbum, praticamente esquecendo o meio dos anos 60 e fazendo poucas menções ao período em que ele teve seu auge criativo e comercial.

Aqueles que procuram por alguma revelação bombástica ou esclarecimentos sobre um ou outro fato mais importante podem até vir a se decepcionar com detalhes sobre um período em que ele viveu praticamente como um dono de casa recluso, sobre suas influências, sobre o modo como desenvolveu seu estilo ou até mesmo sobre os bastidores da gravação de dois álbuns menos conhecidos dentro de sua prolífica carreira (New Morning e Oh Mercy) , mas a verdade é que a clareza com que Dylan descreve cada acontecimento juntamente com o detalhismo de seu texto, não deixam a peteca cair e acabam transformando o livro em um painel rico, preciso e apaixonante.

Creio que CHRONICLES: Vol. One deve ser visto e entendido apenas como a primeira peça de um enorme quebra-cabeça que depois de montado certamente nos ajudará a tentar entender pelo menos um pouquinho mais desse que é um dos artistas mais importantes de nossos tempos. Portanto, acho que agora só nos resta esperar e torcer para que venha logo o Vol. Two.


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8 de Março de 2007

A Revolução dos Bichos


Bichos da Inglaterra e da Irlanda,
Daqui, dali, de acolá,
Escutai a alvissareira
Novidade que virá.

Mais hoje, mais amanhã,
O Tirano vem ao chão,
E os campos da Inglaterra
Só os bichos pisarão.

Para quem nunca leu ou não se lembra, este é o início de Hino dos Bichos, cantado pelas personagens do livro A Revolução dos Bichos, de George Orwell.

Seu nome verdadeiro é Eric Arthur Blair. Nascido em 1903, na Índia, passou a maior parte da sua vida na Inglaterra. Morreu em Londres, no ano de 1950, acometido por uma tuberculose, estando numa situação deplorável, miserável.

E é exatamente por este motivo, somados a outros, que seu livro deve ser lembrado e ovacionado. Não é à toa que é considerado um best seller. O grande problema é que o livro, na época de sua publicação — 1945 —, foi utilizado como instrumento político (claro, o livro é altamente politizado) contrário ao pensamento de seu escritor.

Em Revolução dos Bichos, um grupo de animais, comando pelos porcos, os mais inteligente da granja, expulsam seu dono, o alcoólatra Senhor Jones. Cansados de ser explorados, os bichos, com o poder nas mãos, tomam conta da granja, criando novas leis, regras, dividindo o serviço entre todos e compartilhando os mesmos benefícios, e é claro, não fazendo nada que os humanos faziam.

Cada animal — porco, cavalo, gato, rato, burro e etc — é uma alegoria de um ser humano. Possuem características psicológicas idênticas a certos tipos de indivíduos, fazendo com que nós, leitores, possamos percorrer o caminho contrário: ao invés de ligarmos um bicho a algúem, ligamos alguém ao bicho, do modo que este é descrito por Orwell. È um exercício legal.

Deixando as brincadeiras de lado, continuemos com o livro. Os bichos, motivados pelos discurssos do porco Bola de Neve, se revoltam contra o tirano Senhor Jones e assumem o controle da granja. Feito isso começam a criar regras, Mandamentos, e a mudar a rotina do lugar.

Como não eram suficientemente preparados para desenvolverem todas as atividades do lugar, começam a sentir problemas para plantar, construir muros e trincheiras (os homens poderiam voltar a qualquer momento!) e etc.

Esse despreparo começa a distanciar certos grupos de animais, que se enxergam melhores por saberem elaborar, pensar e principalmente liderar (na base da demagogia) alguns planos.

A maioria dos animais é semi ou completamente analfabeta, sendo incapazes de descobrir ou questionar o que estava acontecendo. A comida fica escassa, não a mais aulas para todos, um pequeno grupo não trabalha mais e... pronto! Está armado o estopim para uma revolta dos já revoltosos bichos. Muitos querem mudar, outros, alienandos como são, acreditam estar tudo bem.

O ponto principal é: o poder obtido mediante a revolta, por um grupo de pessoas (animais, no caso) despreparados, apoiados apenas em ideais formentados por discurssos, é benéfico?

Em Revolução dos Bichos fica claro que pode não ser. As alegorias retratam o quadro social da época em que viveu Orwell. O Senhor Jones pode ser comparado aos Czares russos. Os porcos, ao grupos comunistas que inflamavam as massas até o ponto de estourar uma Revolução. Os outros bichos, no geral, são a massa.

O fato é que o livro foi utilizado pelos americanos (como sempre...) como propaganda anti-comunismo, na época da Guerra Fria — o termo Guerra Fria é atribuído à Orwell.

Ele se definia como um socialista de convicções profundamente democráticas. Seu livro pode ser considerado um ataque ao poder totalitário, enganador, mas não um planfleto contra o socialismo ou comunismo. O escritor, em algum momento, deve ter tido algum desgosto contra alguém em quem acreditava, mas não contra o movimento em que acreditava.

Fato melancólico, tão quão sua morte, este desvio de sentido que deram ao seu livro. O governo americano fez até um desenho do livro para atacar o comunismo, mas o final foi modificado... (Não falarei como é o final, óbvio).

Mas por estes e tantos outros motivos, Revoluçao dos Bichos é leitura obrigatória para quem gosta de polêmica. E para encerrar nada melhor do que uma frase do livro para reflexão: Todos animais são iguais, mas alguns são mais parecidos que os outros.

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14 de Dezembro de 2006

HQ coreana sobre a vida de Che Guevara


O governo da Coréia do Sul tem investido pesado no mercado de história em quadrinhos e alguns bons frutos desse investimento já podem ser vistos. Um bom exemplo é a hq Che - Uma Biografia que chega às bancas essa semana com distribuição setorizada.

A hq, que tem 250 páginas e deve custar em torno de 23 reais, traz a biografia do lendário revolucionário argentino desde o seu nascimento, passando pela revolução cubana, até a sua execução no Bolívia em 1967.

O escritor e desenhista Kim Yong-Hwe, autor da obra, prioriza o lado humano e revolucionário do mito Che Guevara mostrando principalmente suas idéias revolucionárias e a crença de que o países latino-americanos só conseguirão a sua liberdade através de uma luta armada. Em algumas partes podemos ver transcrições completas das cartas do próprio Che.

Não é todo dia que vemos coisas assim por aqui não é mesmo? Então, corra até a banca mais próxima e garanta já a sua! (Isso pareceu comercial do polishop ou daquele "1406" hehehe)

;)


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5 de Dezembro de 2006

Mais Pesado Que o Céu


Mais Pesado Que o Céu foi escrito em 2001 pelo jornalista e crítico musical Charles R. Cross e conta em detalhes a polêmica e conturbada vida de Kurt Cobain, cantor, guitarrista e compositor de um dos mais influentes e consagrados grupos de rock dos anos 90, o Nirvana.

O jornalista foi um dos primeiros a ter acesso aos hoje já conhecidos diários de Kurt (Journals) e foi baseado nesses relatos pessoais, em entrevistas com amigos, parentes, companheiros de banda e da própria viúva do cantor, Courtney Love, que ele construiu sua narrativa sobre a vida de Kurt e sobre os fatos que levaram ao suicídio do cantor em 1994.

Página após página vemos todas as transformações que ocorreram em uma criança feliz, inteligente e até mesmo "popular", que já demonstrava interesse pelas artes e principalmente pela música, quando fazia seus desenhos, tocava o seu pequeno tambor e ouvia todos os discos dos Beatles de sua tia, mas que após a separação de seus pais acabou se transformando em um adolescente deslocado, com problemas de adaptação, que não conseguia se estabilizar em nenhum lugar e que passou toda a sua juventude perambulando de lugar em lugar sem nunca ter conseguido se "encaixar".

O autor passa por todo esse período conturbado até a criação da banda, os primeiros shows, a gravação do 1º disco, as constantes trocas de baterista, a chegada de Dave Grhol, o sucesso estrondoso de Nevermind, os problemas crônicos no estômago de Kurt, o uso abusivo de drogas, o tempestuoso relacionamento com Courtney, as internações, as tentativas de suicídios, as turnês, os shows antológicos e aqueles que a própria banda preferia esquecer.

Ao final da leitura você irá perceber que Mais Pesado Que o Céu não é só um livro qualquer feito p/ os fãs da banda, mas que é daqueles livros que chegam a ser essenciais na prateleira de qualquer um que seja amante de música e literatura, pois conta a história da vida de um artista, de um ser humano excepcional e que assim como todos nós, também era cheio de contradições e problemas.

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